Sejam Bem Vindos a Casa da Família

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18 de julho de 2011

O Buda Dourado

Há muito, muito tempo, numa terra distante, havia um Buda dourado. Esse ser magnífico era feito de toneladas de ouro puro e tinha a altura de dez homens. O grande Buda estava serenamente sentado na postura de lótus no jardim de um mosteiro, construído no alto de uma encosta que delimitava uma pacífica cidadezinha. Nesse local tão tranqüilo, eram muitos os peregrinos espirituais que permaneciam sentados, meditando aos pés do Buda dourado, contemplando as profundezas do próprio ser.

Um dia chegou ao mosteiro a notícia de que um exército inimigo, de uma cidade vizinha, estava a caminho para invadir aquele local. Essa informação perturbou os monges, pois eles sabiam que, se aquele exército descobrisse o Buda dourado, ele seria profanado e destruído. Apressadamente, os monges reuniram-se para tentar encontrar uma maneira de salvá-lo. Depois de examinarem muitas idéias, um monge propôs que se disfarçasse o Buda. "Vamos cobri-lo com lama, pedras e argamassa", sugeriu ele. "Então, os invasores vão acreditar que a estátua é só uma escultura de pedra." A idéia foi aprovada por unanimidade, e o projeto teve início.

Os monges trabalharam com afinco durante toda a noite. Iluminados pelo místico fulgor das tochas incandescentes, todos os monges, jovens e idosos, ofereceram orações e somaram forças para salvar o Buda. Finalmente, quando começava a despontar o dia no céu oriental, a última camada de concreto foi despejada sobre a cabeça do Buda. O grande deus de ouro tinha se transformado numa estátua de cimento.

E foi bom que os monges tivessem trabalhado com tanto zelo, pois mais tarde, nesse mesmo dia, os pesados passos e o ranger das rodas do exército guerreiro invasor se fizeram ouvir na entrada da cidade. Os soldados escalaram a colina onde ficava o mosteiro e enfileiraram-se ao longo do templo. Os monges, ansiosos, espreitavam a procissão, orando com todo fervor para que nem uma centelha de ouro brilhasse em meio ao revestimento que disfarçava o Buda. O exército passou, e os soldados mal olharam para trás. Os monges deram um profundo suspiro de alívio - o plano tinha dado certo. O Buda passara despercebido. Assim, os monges retornaram satisfeitos às suas atividades. Passaram-se anos, e depois de muito tempo o exército invasor abandonou a aldeia. Nessa ocasião, porém, todos os monges que tinham recoberto o Buda já tinham falecido ou saído do mosteiro. Na verdade, não restava na cidade ninguém para lembrar que a verdadeira natureza do Buda era de ouro. Todos os que estavam no mosteiro e na aldeia ocupavam-se com seus afazeres, e os que olhavam para a estátua acreditavam que fosse feita de pedra. Mas, certo dia, um jovem monge estava sentado nos joelhos do Buda, meditando. Quando ele se ergueu, ao fim das preces, apoiou-se na perna do Buda, e um pedacinho de concreto despregou-se do joelho, caindo no chão. Surpreso, o monge observou que algo brilhava embaixo da pedra. Tirando os fragmentos, ele descobriu que existia um outro Buda por baixo daquele que todos contemplavam - e era de ouro! O monge correu até o grande saguão do templo, onde os outros estavam estudando. "Venham imediatamente", ele gritou, "o Buda é de ouro!" Os monges largaram o que estavam fazendo e foram em bando até onde ficava a estátua. Quando viram que o jovem monge estava falando a verdade, voltaram correndo para pegar marretas e cinzéis. Juntos começaram a retirar as pedras e a argamassa que haviam disfarçado o Buda por tantos anos. Não demorou muito para que todo o disfarce fosse removido, e o Buda dourado devolvido ao seu esplendor original. A história do Buda dourado é verdadeira. Hoje ele está majestosamente assentado no Templo do Buda Dourado, em Bangcoc, na Tailândia, onde milhares de devotos se colocam a seus pés, encontrando refúgio na natureza áurea que há no interior de si mesmos.

Mas esta história tem um significado mais profundo. Existe um ser dourado dentro de cada um de nós. Por trás das fachadas, das defesas, das imagens que apresentamos ao mundo, existe uma alma brilhante e preciosa pedindo para se expressar. Em nosso íntimo existe alguém forte, sábio e compassivo. Alguém com imensa capacidade de dar e receber amor e conhecer as profundas verdades do coração. É esse alguém que temos buscado durante toda a nossa vida. O Buda dourado é você e eu.

Ao longo de anos a fio - de várias vidas, às vezes - nós nos protegemos da tão temida destruição recobrindo nosso verdadeiro eu com armaduras de proteção, máscaras de audácia e destemor, muros de pedra para defender-nos. De camada em camada, revestimos nossa natureza original com ilusões e inverdades a respeito de quem somos. A princípio, nossa intenção era apenas proteger-nos do sofrimento, mas assim mantivemos o amor a distância. Pensamos que poderíamos nos sair bem correspondendo a uma imagem de nós mesmos esperada pelo mundo externo, mas essa adaptação custou-nos o elevado preço da nossa vida interior. Ironicamente, na tentativa de fazer com que os outros acreditassem que éramos alguém que não éramos, acabamos enganando a nós mesmos.
Não importa por quanto tempo o Buda tenha ficado disfarçado; a nobre aventura de reapossarmo-nos de nossa identidade começa no exato momento em que percebemos de relance o ouro que reluz embaixo da pedra.

"Pense Nisso ”

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